O que isso tem a ver com o título? Explico.
Uma noite dessas, umas das raras em que eu consigo dormir um sono profundo (porque na maioria das vezes eu acordo no meio da noite e não durmo mais) eis que eu tive um sonho um tanto quanto inusitado e quando acordei percebi que estava sorrindo, não porque estivesse feliz com o sonho, mas por causa da situação que só uma imaginação fértil como a minha seria capaz de criar. E eu nem tive motivação para tanto!
Digo isto porque eu não havia assistido a nenhum filme ou documentário, nem visto nada que tivesse ligação com Elvis Presley. Eu simplesmente sonhei com ele! E que sonho estranho!
Bom, vamos aos fatos, digo, ao sonho em questão:
Eu estava aqui, na minha cidade, acompanhando um show da banda do meu marido (ele tem uma banda de heavy metal), quando chega um sujeito meio estranho contando a história de um homem que vivia numa fazenda nas proximidades e jurava que era o Elvis Presley.
Achamos a história engraçada e quando terminou o show nós fomos conversar com ele pra saber mais sobre esse maluco.
O sujeito disse que o tal Elvis já vivia aqui há não sei quantos anos e, quando ele chegou na fazenda estava completamente perdido, machucado, porque havia sofrido um acidente e ele ficou vagando pelas estradas à fora até que encontrou o bondoso fazendeiro que o acolheu. Só que o pobre homem estava completamente desmemoriado, não sabia falar a nossa língua e nem quem ele era. Após algumas investigações nas redondezas pra descobrir quem ele era, sem sucesso, chegaram à conclusão de que poderiam deixá-lo morando na fazenda e ele poderia trabalhar lá. Com o tempo, quem sabe, ele se recuperaria e talvez se lembrasse quem era e de onde tinha vindo.
Acontece que os anos foram passando e o coitado, a quem chamaram carinhosamente de João, não conseguia recuperar a sua tão estimada memória, sabendo apenas que a sua vida começara ali, na beira da estrada, não havendo mais nada antes disso.
Bom, eis que um belo dia, o tal do João sai a cavalo, como sempre fazia todas as manhãs e vai supervisionar os limites da fazenda pra ver se estava tudo nos conformes, quando, de repente, o cavalo se assusta e dá uma empinada tão violenta que o joga no chão. João bate com a cabeça e desmaia no mesmo instante. Ele acorda num pronto socorro com a cabeça enfaixada e atordoado, mas sem nada grave. Ele volta pra fazenda com as pessoas de lá preocupadas com ele e tira o resto do dia de folga.
E não é que ele teve uma epifania? Pois é, daquelas que vêm, parecendo uma pancada no meio do nariz, que a pessoa até cai pra trás!
_ Elvis Aaron Presley! Saiu ele gritando. _ Esse é o meu nome!
Ninguém entendeu nada. Mas ele continuou falando e começou a contar como era a sua vida de caminhoneiro e como havia gravado uma música de presente do dia das mães e foi descoberto por um produtor musical e se tornou um cantor de sucesso. E também contou como ele tinha ido parar ali, que ele fugiu e forjou a própria morte e que tinha vindo pro Brasil por considerar um lugar fora do alcance na época e que toda a fortuna que ele possuía estava guardada em um determinado lugar onde somente ele sabia a localização.
Ficou louco! Essa foi a conclusão mais lógica. Como poderia um pé-de-chinelo daquele ser o rei do rock? Nananinanão, sem possibilidades. E riram dele. Muito.
Mas ele queria provar que era ele mesmo. E pra isso precisava de dinheiro pra viajar até o determinado local da sua fortuna. Como ninguém o ajudou, então ele decidiu fazer uma apresentação e cantar seus antigos sucessos pra provar que continuava em plena forma e poderia arrecadar uns trocados para a sua saga viajante de prova de identidade.
E era exatamente isso que o tal sujeito que contava essa história estava fazendo ali, naquele bar, onde havia o show de rock. Planejava agendar uma apresentação de seu amigo João Maluco, vulgo Elvis Presley, pra provar que ele era o dito cujo. Só que, pra que isso acontecesse, alguma banda tinha que se dispor a acompanhá-lo, pois, o pobre coitado não tinha banda. Era uma caridade! E não é que o meu marido topou a parada? Aceitou no mesmo instante a proposta de tocar com o Elvis rural. Pôs a sua banda à disposição e marcaram o dia.
Pois é, negociações a parte, eu fiquei muito empolgada com os fatos. Já imaginou se o cara fosse o verdadeiro Elvis? Como a gente ia ganhar com isso! Ser uma banda de interior que tocou com o rei do rock! E de quebra, além da fama, ganhar a amizade dele e uma pequena fortuna, claro! Muito bom! Então começamos a planejar o tão esperado dia do show, ensaiando as músicas do Elvis e esperando encontrar o homem da pélvis mais polêmica da Terra.
Enfim, chegou o dia. Todos na expectativa, o bar lotado à espera do bom e velho rock’n’roll enquanto o pessoal da banda aguardava ansioso o seu encontro com o rei do rock num misto de sentimentos entre curiosidade, excitação e uma pontinha de sarcasmo.
Acontece que, na última hora o homem amarelou. Ficou com medo de tudo e não sabia se ia dar conta do recado, como havia prometido. E, de quebra, o nosso baixista teve um problema e faltou. Só pra constar: sempre temos problemas com baixistas e desta vez não foi diferente hehehehe. Então saímos feito loucos procurando um baixista que se dispusesse a tocar enquanto o pessoal foi se dispersando, até que ficou muito tarde e não havia quase ninguém. Aliás, só restamos nós, da banda e mais dois amigos que sempre nos acompanham. Era fim de noite e até então nada de extraordinário havia acontecido.
Eis que meu marido joga o baixo na minha mão e diz: você pode tocar! São poucas notas, muito fácil! E me deu as coordenadas e eu aprendi logo! (devo lembrar que isso foi um sonho?)
Então começamos a tocar e a chamar pelo rei do rock, que logo perdeu a timidez e apareceu começando a cantar como se estivesse em Memphis! O show foi uma loucura, com muitas performances, incluindo seus famosos rebolados! Foi demais! Inesquecível! Tocamos os maiores sucessos do rei e ainda recuperamos uma boa parte do público que havia se dispersado. Ninguém conseguia acreditar no que estava acontecendo. Parecia que estávamos num daqueles videoclipes em imagem tecnicolor! Me senti nos anos dourados! E o público foi ao delírio dançando e cantando. Foi mesmo uma experiência singular!
E o que aconteceu depois? Eu acordei! Com um sorriso sincero de satisfação por tudo ter dado certo e ainda por cima de ter uma imaginação tão fértil e tão retrô a ponto de me transportar a uma dimensão em que questões colocadas à prova são capazes de se revelarem como uma saída ao que consideramos impossível de existir. E tudo graças a uma boa noite de sono!
Por falar nisso, uma boa noite pra você também! Sonhe com Elvis!
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